A violência contra a mulher é um fenômeno complexo que envolve fatores individuais, relacionais, sociais e culturais. Considerada um grave problema de saúde pública e de violação de direitos, estima-se que uma em cada três mulheres em todo o mundo sofra algum tipo de violência durante a vida, sendo em sua maioria perpetrada por parceiros e deixando marcas indeléveis nas vítimas. Somos um dos países com índices mais elevados a nível global. Por aqui, o reconhecimento sobre este grave problema é recente, tendo pouco mais de três décadas. Maria da Penha Maia Fernandes foi protagonista e ativista na luta do direito da mulher em ter uma vida livre de violência, originando a Lei 11.340, “Lei Maria da Penha”.

E meio a Pandemia do COVID-19, evidencia-se um aumento nas notificações de violência contra a mulher nos países afetados, como China, Espanha e França. Especificamente no Brasil, estima-se um aumento expressivo de até 50% nas denúncias de violência doméstica.

O impacto da pandemia tem desencadeado rupturas na vida das famílias e da sociedade em geral. Medidas emergenciais de quarentena e restrições de movimento, necessárias à prevenção da COVID-19, alteram a rotina de modo geral, sendo fonte adicional de estresse e tensão. Ambientes com fragilidade nos vínculos, podem representar risco maior para atos violentos, especialmente direcionados à mulher.

Com as medidas de isolamento e distanciamento social, as mulheres acabam tendo menos contato com sua rede socioafetiva, e limitado acesso aos serviços de saúde e assistência devido aos esforços direcionados ao enfrentamento da COVID-19, o que favorece a perpetração de violências. Os agressores podem se utilizar das recomendações relacionadas a restrições e isolamento como meio para exercer poder e controle sobre as parceiras, dificultando ainda mais seu acesso aos serviços de apoio e atenção psicossocial disponíveis; por consequência, impondo às mulheres barreiras percebidas como instransponíveis na defesa de seus direitos e busca de proteção. Outro aspecto pertinente a ser considerado, refere-se ao fato de que o isolamento tem ocasionado aumento de consumo de álcool e outras drogas no ambiente familiar como estratégias de enfrentamento na busca por sentir prazer e relaxamento, o que também pode aumentar o risco de violências. Estudos defendem que o álcool é um forte preditor do comportamento violento.

Diante desse cenário, é urgente que sejam direcionados esforços em defesa dos direitos da mulher e contra todo o tipo de violência – seja pelo Poder Público ou mobilização da sociedade civil. Para tanto, se faz crucial o desenvolvimento de estratégias criativas para que a mulher possa comunicar a violência em segurança e não limitar o acesso aos Serviços. Ainda, é importante que a comunidade se sinta encorajada e autorizada a denunciar atos de violência contra a mulher.

 

Graciela Gema Pasa

Psicóloga CRP 07/20344